Fazem quarenta e três dias que estou morto, meus olhos estão mais pesados do que nunca, em minha barriga, borboletas mortas pesam constantemente me deixando cada vez mais lento, não sinto mais minha luxúria, acredito que tudo que havia de mim está aos poucos sumindo comigo, meu coração batia e agora ele apenas agoniza, seu pulsar lento e agonizante vai devorando lentamente as paredes do meu corpo, me deixando cada vez mais fraco, não sinto mais nada além de vazio, estou à beira de um abismo onde não posso ver o fim, mas eu sei que do outro lado existe a minha felicidade, estou com medo de me jogar nesse abismo, posso ser esmagado pelo ar ou até destruir o resto de mim atingindo o chão, seria como um míssil humano atingindo com tudo a terra que habitava no meio daquela escuridão sem fim, meus amigos, tampouco me importavam, não eram nada mais do que pratos vazios postos à mesa, minhas asas de ferro estavam enferrujadas e eu já não queria voar, por mais que me aproximasse da beira, algo me impedia de me jogar dali, eu temia o pior mas não aguentava mais o meio de tudo, o importante não é como algo termina, mas sim o que leva algo a terminar, não digo que entendo a cabeça de todos que pensam similar a mim, não viso sucesso, não viso fama, não viso nada além de escuridão posta abaixo de mim, estou temendo um abismo por medo de me machucar, embora, não se teme aquilo que não se vê, quem sabe se eu pular de olhos fechados, eu posso aterrissar em um campo de flores e ouvir pássaros cantarem, levantaria a mão e algum pequeno beija-flor pousaria em minha mão, eu acariciaria o vento enquanto ele me abraçava, esperaria ouvir sua voz me dizendo que já podemos correr livremente pelo campo florido, embora, eu continue aqui, de pé, desejando o fim do abismo mas com medo de salta-lo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog