No topo de sua montanha, o homem fitava as luzes, todas aquelas luzes em velocidades absurdas, misturando-se ao clarão que toma conta de suas vidas, ele não necessitava de um nome, afeto ou qualquer outro tipo de coisa, ele não iria se importar em ter um dia ruim, ou uma série deles, na verdade, esse seria o último, como chegou no topo dessa montanha? Ele olhou-se no espelho, o que viu assustaria até o mais perturbado ser vivo existente, ele não via um homem, uma mulher, ou um animal, o que ele via, eram suas esperanças, suas frustrações, seu desespero, tudo que o impedia de dormir durante as noites, tudo que o atormentava em segredo, ele cravaria cada momento em sua pele, com um único golpe, ele não queria a última fatia do bolo, a chuva no céu nublado parecia mais atrativa, tendo sua cabeça chocada contra os cacos do espelho, gotejar avermelhado escorria da sua face, não era nada importante, seus lábios pressionados por seus dentes e seus passos lentos, subindo escadas que beijavam uma saída, ninguém poderia salva-lo, ninguém se importaria em tentar, ele corria até a varanda e olhava para baixo, gritando o mais alto que podia, ninguém iria ouvi-lo, jamais iriam ouvir, feliz por isso, talvez instável, quem sabe, suas últimas palavras, foram apenas o chocar de um corpo contra as raízes da vida, um corpo já esmagado pelo atrito do ar, leve-o de volta para o buraco mais fundo.
Me vejo envolto pela caça, predador que sou, grito de agonia pelas mordidas, não sinto mais a dor, apenas o desconforto, não sinto mais o ódio, apenas o frio, não sinto mais amor... apenas sinto o tempo passar por mim enquanto vejo minha carne ser destroçada pela caça.
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